domingo, 10 de março de 2013

Conto 01

"Muitos assuntos estão velados sob nosso nariz.
Não enxergamos a poeira da ignorância que afeta tanto os alérgicos da vida.
Vivemos com doenças toscas, que deveriam ser erradicadas com vacinas de boa moral e sabedoria."
P.Theos

O primeiro dia sempre é o dia mais difícil. Rodeado de incertezas, de expectativas, sempre estamos prontos para julgar que se aproxima e como lidamos com as coisas.
Primeiras impressões, o que passamos, o que vivemos, o que vemos, o que sentimos. 
Mal sabem aqueles que desprovidos da consciência clara, que o primeiro é o menos importante, pois o que importa é a continuidade, o sempre.
Estamos contidos numa dimensão, com noção de passado-presente-futuro, instituído pelo Alento no intuito de criarmos parâmetros de evolução dentro dessa casca finita que chamamos de corpo.
Esquecemo-nos que a única coisa que existe é o sempre.

"O sol estava se pondo, no horizonte, a luz coral do por-do-sol denunciava o entardecer acabando, dando lugar a uma noite de lua crescente, clara e brilhante. Era possível ouvir os pássaros se ajeitando sob os galhos das árvores para mais um adormecer.

Toc-toc-toc, alguém batia na porta. Uma porta de madeira maciça. que trancava um casebre de tijolos velhos, na subida do morro do monastério. Quem haveria de ser, aquela hora na segunda-feira a noite? 

O monge se preparava para dormir, junto com os pássaros, e num primeiro instante resolveu ignorar o som seco que vinha das batidas na porta. Toc-toc-toc.

Era alguém que não conhecia os protocolos daquele lugar, ou algum rebelde que estava a perturbá-lo, já que os tempos mudaram e com acessos liberados, qualquer um poderia entrar naquelas terras.

O monge dormiu escutando as batidas na porta, uma a cada 2 minutos, 5 minutos, 10 minutos, 30 minutos, 1 hora, 2 horas, 3 horas, até acordar com a última batida, ensurdecedora, muito abafada. Boom!

O monge acordou, assustado, foi até a porta e encontrou uma pedra embrulhada com um bilhete de seu Lama, que dizia:

"Precioso aprendiz,

vejo que de nada servem os ensinamentos que vens aprendendo 
nesse monastério suspenso nas nuvens, uma vez que o seu ego 
só sabe seguir regras desse mundo de ilusões em que vivemos.

Ao bater na porta, queria convidar-lhe a participar do ritual 
sagrado, mas as convenções que te prendem aos hábitos regrados 
o impediu de atender-me e desfrutar dessa maravilhosa dádiva.

Aconselho que se abra ao teu interior, e se feche ao exterior, e 
abandone o seu ego ao se levantar da sua cama.

Pois não será o seguir das regras que o levantará, mas as medidas
 que o seu coração gera para apaziguar o seu destino nessa vida 
de evolução.

Venha a minha porta, no mesmo horário em que bati na sua porta, 
para teres comigo a sua chance."

O jovem monge sentou-se gelado e suando frio em sua porta, e percebeu que os velhos hábitos dogmáticos estavam a sua espreita. Se viu como um velho rabugento preso às convenções sociais daquele sistema e pôde perceber que a essência fundamental está acima de qualquer paradigma, e que a sabedoria dessa história seria se refazer e estar aberto a ponderar os acontecimentos, corrigir as rotas estranhas e seguir no caminho da presteza e da humildade.

Nessa manhã, o monge jejuou de seu orgulho por estar lá entre os iluminados e bebeu da chance de ser um dos acolhidos pela sabedoria, e assim resolveu não se amargurar e nem se punir, mas se levantar e compartilhar com seu mestre o seu reconhecimento humilde do erro por tê-lo ignorado.

O Mestre só aparece quando estamos preparados para Ele. Mas se ainda nos determos em não enxergá-lo, com a sabedoria, teremos uma nova chance de reconhecê-Lo."

2013, Março, 10.
Re-publicando em 2018



2 comentários:

  1. Que bom que ele teve uma segunda chance. Na vida, nem sempre temos uma...
    Lindo texto, parabéns! :-)

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