quinta-feira, 18 de abril de 2013

Conto 03

Lendo o I Ching, me deparei refletindo sobre o Hexagrama 31, Hsien, A Influência. Onde dizia: " Quando num homem atua o tranquilo poder de seu próprio ser, os efeitos serão adequados."

Foi então que me recordei de um ensinamento de uma linda Instrutora que tenho, que disse emocionada à turma que "O primeiro desafio do ser humano é viver nesse mundo que tenta te carregar o tempo todo. Onde está a sua decisão? É mais fácil culpar o outro, a TV, a mídia, do que se olhar e se policiar todos os dias de sua vida para se transformar. Vai ser difícil, mas é possível. Esse esforço é inicial, mas depois que se alterar a natureza, a transformação interna é profunda."

E então, como discípulo eu me pergunto: Quantas vezes vivemos à margem de nossa própria vida, na tangente de nossa consciência?

Conto 03

Um velho, já curvado pelo tempo, sem tanta saliva na boca, ocupado com suas pernas que já não lhe correspondiam da maneira que pensava, estava sentado em sua varanda, como que preso em seu corpo.

Sua mente o levava à lugares visitados em sua juventude, à beijos dados em suas garotas na época do rock´n´roll e ao cachorro que teve quando tinha 7 anos.

Lembrava e sorria. Lembrava e vibrava. De repente, tudo embaralhava, e ele pensava em ser hoje e começava a assobiar, chamando por Tim-tim. Quando percebia, em lapsos de consciência, que já era outra época e que o cachorro não viria, coçava a cabeça e se emocionava por estar perdido em si.

O desejo pelo cachorro o lembrava do mesmo desejo de ter o filho de volta à infância, quando empinava pipa na vizinhança, porque hoje o filho não estava mais lá com ele, pois estava ocupado nos mesmos erros que aprendera com o pai, como praticar o rancor, deixando as pessoas sufocadas com suas lembranças.

O amor, passou longe, e quando foi recordado e valorizado, as pernas não podiam mais andar corretamente, as palavras se perdiam na imensidão do tempo vivido, e a valorização das coisas já estavam infantilizadas novamente.

O velho pensou em pegar o telefone, e discar o número do filho, mas a tecnologia já era tamanha que ele não se lembrava mais como ligar de um celular touch screen.

Teve então que chamar a cuidadora, e solicitá-la que falasse com o seu filho.

Sob recomendações do próprio filho, a cuidadora não atendeu o pobre velho, pois o filho era muito ocupado e só poderia ver o pai aos domingos de manhã.

O tempo passou. O filho aprendeu com o pai.

E o pai iniciou a rezar, pedindo a Deus que o filho não levasse o mesmo tempo que ele precisou para aprender que não existe momento certo para o amor. Não temos que esperar.

Pode não haver o amanhã.

2013, Abril, 18

segunda-feira, 11 de março de 2013

Conto 02


"Lutas acontecem desde os anticorpos contra bactérias até desejos contra vontades superiores.
Onde anda o seu livre-arbítrio? Ele anda preso e pesado em você ou solto e leve em sua consciência?"
P. Theos

A percepção depende do ponto de vista de cada um.
Perceber sob diversas óticas é o grande crescimento da alma.

"O Guerreiro em sua incessante sede de vencer afiava a sua espada em uma pedra na montanha.
Afiava e conferia, com as pontas dos dedos se o corte estava exatamente como deveria estar.
Ensaiou alguns golpes, no pescoço do inimigo, em seu estômago, arrancando sua mão.

Sentiu o peso da espada, colocou-a em sua bainha.

Respirou fundo e sentiu como se tivesse cumprido o seu dever naquele dia. Estava protegido.

Caminhou até a sua rede, que estava estendida entre duas árvores. Conferiu a pequena fogueira, acenou aos demais companheiros e pôs-se a deitar em sua rede de retalhos.

Ele se entregava aos seus retalhos de vida, naquele momento, na lembrança sombria da dimesão mórbida que acessava em seus sonhos.

Fechou os olhos e lembrou-se que na noite anterior sonhara com sua família, deixada na vila agrária, protegida daquele sangue que esguichava de cada veia que cortava pelo propósito que acreditava.

Segurou sua espada e entregou-se à sua rede de retalhos.

Noutra dimensão consciente, sonhou. 

Primeiro encontrou-se com seus irmãos de batalha, reviu seus planos de ataque, conferiu o corte de sua espada e foi fazer suas refeições.

Depois, encontrou-se com sua mãe morta, em meio a outras pessoas desconhecidas, e a abraçou como se recordasse de sua infância miserável, e a pediu perdão por ter se tornado um homem frio e sem medo de tirar a vida do outro.

Então, num terceiro sonho, viu o inimigo o empurrando precipício abaixo.

Foi quando acordou gelado, saltando de sua rede de retalhos, com sua espada empunhada.

Percebendo que seus desejos e seus medos eram capazes de alterá-lo, mesmo que estivesse dormindo.

Na manhã seguinte, foi em busca de seu capitão para contar-lhe seus sonhos, como se sentisse um presságio...

O capitão o ignorou, porque guerreiros não podem sentir medo.

O guerreiro preocupado com a sua queda, questionou-se se o seu propósito de estar ali era por algo superior ou por algo inferior. 

Se o propósito era pela coletividade ou por si. 

Se estava sendo apenas mais um na massa de manobra dos grandes reis ou se estava ali por amor ao reino.

A dúvida o tomou por inteiro.

Lembrou-se que a sua família era o que lhe restava.


Entendeu que o capitão o interpretara apenas como mais um braço que levantava a espada.

Desacreditou em seu propósito.

Desertou e voltou para a sua vila."



2013, Março, 11

domingo, 10 de março de 2013

Conto 01

"Muitos assuntos estão velados sob nosso nariz.
Não enxergamos a poeira da ignorância que afeta tanto os alérgicos da vida.
Vivemos com doenças toscas, que deveriam ser erradicadas com vacinas de boa moral e sabedoria."
P.Theos

O primeiro dia sempre é o dia mais difícil. Rodeado de incertezas, de expectativas, sempre estamos prontos para julgar que se aproxima e como lidamos com as coisas.
Primeiras impressões, o que passamos, o que vivemos, o que vemos, o que sentimos. 
Mal sabem aqueles que desprovidos da consciência clara, que o primeiro é o menos importante, pois o que importa é a continuidade, o sempre.
Estamos contidos numa dimensão, com noção de passado-presente-futuro, instituído pelo Alento no intuito de criarmos parâmetros de evolução dentro dessa casca finita que chamamos de corpo.
Esquecemo-nos que a única coisa que existe é o sempre.

"O sol estava se pondo, no horizonte, a luz coral do por-do-sol denunciava o entardecer acabando, dando lugar a uma noite de lua crescente, clara e brilhante. Era possível ouvir os pássaros se ajeitando sob os galhos das árvores para mais um adormecer.

Toc-toc-toc, alguém batia na porta. Uma porta de madeira maciça. que trancava um casebre de tijolos velhos, na subida do morro do monastério. Quem haveria de ser, aquela hora na segunda-feira a noite? 

O monge se preparava para dormir, junto com os pássaros, e num primeiro instante resolveu ignorar o som seco que vinha das batidas na porta. Toc-toc-toc.

Era alguém que não conhecia os protocolos daquele lugar, ou algum rebelde que estava a perturbá-lo, já que os tempos mudaram e com acessos liberados, qualquer um poderia entrar naquelas terras.

O monge dormiu escutando as batidas na porta, uma a cada 2 minutos, 5 minutos, 10 minutos, 30 minutos, 1 hora, 2 horas, 3 horas, até acordar com a última batida, ensurdecedora, muito abafada. Boom!

O monge acordou, assustado, foi até a porta e encontrou uma pedra embrulhada com um bilhete de seu Lama, que dizia:

"Precioso aprendiz,

vejo que de nada servem os ensinamentos que vens aprendendo 
nesse monastério suspenso nas nuvens, uma vez que o seu ego 
só sabe seguir regras desse mundo de ilusões em que vivemos.

Ao bater na porta, queria convidar-lhe a participar do ritual 
sagrado, mas as convenções que te prendem aos hábitos regrados 
o impediu de atender-me e desfrutar dessa maravilhosa dádiva.

Aconselho que se abra ao teu interior, e se feche ao exterior, e 
abandone o seu ego ao se levantar da sua cama.

Pois não será o seguir das regras que o levantará, mas as medidas
 que o seu coração gera para apaziguar o seu destino nessa vida 
de evolução.

Venha a minha porta, no mesmo horário em que bati na sua porta, 
para teres comigo a sua chance."

O jovem monge sentou-se gelado e suando frio em sua porta, e percebeu que os velhos hábitos dogmáticos estavam a sua espreita. Se viu como um velho rabugento preso às convenções sociais daquele sistema e pôde perceber que a essência fundamental está acima de qualquer paradigma, e que a sabedoria dessa história seria se refazer e estar aberto a ponderar os acontecimentos, corrigir as rotas estranhas e seguir no caminho da presteza e da humildade.

Nessa manhã, o monge jejuou de seu orgulho por estar lá entre os iluminados e bebeu da chance de ser um dos acolhidos pela sabedoria, e assim resolveu não se amargurar e nem se punir, mas se levantar e compartilhar com seu mestre o seu reconhecimento humilde do erro por tê-lo ignorado.

O Mestre só aparece quando estamos preparados para Ele. Mas se ainda nos determos em não enxergá-lo, com a sabedoria, teremos uma nova chance de reconhecê-Lo."

2013, Março, 10.
Re-publicando em 2018