Lendo o I Ching, me deparei refletindo sobre o Hexagrama 31, Hsien, A Influência. Onde dizia: " Quando num homem atua o tranquilo poder de seu próprio ser, os efeitos serão adequados."
Foi então que me recordei de um ensinamento de uma linda Instrutora que tenho, que disse emocionada à turma que "O primeiro desafio do ser humano é viver nesse mundo que tenta te carregar o tempo todo. Onde está a sua decisão? É mais fácil culpar o outro, a TV, a mídia, do que se olhar e se policiar todos os dias de sua vida para se transformar. Vai ser difícil, mas é possível. Esse esforço é inicial, mas depois que se alterar a natureza, a transformação interna é profunda."
E então, como discípulo eu me pergunto: Quantas vezes vivemos à margem de nossa própria vida, na tangente de nossa consciência?
Conto 03
Um velho, já curvado pelo tempo, sem tanta saliva na boca, ocupado com suas pernas que já não lhe correspondiam da maneira que pensava, estava sentado em sua varanda, como que preso em seu corpo.
Sua mente o levava à lugares visitados em sua juventude, à beijos dados em suas garotas na época do rock´n´roll e ao cachorro que teve quando tinha 7 anos.
Lembrava e sorria. Lembrava e vibrava. De repente, tudo embaralhava, e ele pensava em ser hoje e começava a assobiar, chamando por Tim-tim. Quando percebia, em lapsos de consciência, que já era outra época e que o cachorro não viria, coçava a cabeça e se emocionava por estar perdido em si.
O desejo pelo cachorro o lembrava do mesmo desejo de ter o filho de volta à infância, quando empinava pipa na vizinhança, porque hoje o filho não estava mais lá com ele, pois estava ocupado nos mesmos erros que aprendera com o pai, como praticar o rancor, deixando as pessoas sufocadas com suas lembranças.
O amor, passou longe, e quando foi recordado e valorizado, as pernas não podiam mais andar corretamente, as palavras se perdiam na imensidão do tempo vivido, e a valorização das coisas já estavam infantilizadas novamente.
O velho pensou em pegar o telefone, e discar o número do filho, mas a tecnologia já era tamanha que ele não se lembrava mais como ligar de um celular touch screen.
Teve então que chamar a cuidadora, e solicitá-la que falasse com o seu filho.
Sob recomendações do próprio filho, a cuidadora não atendeu o pobre velho, pois o filho era muito ocupado e só poderia ver o pai aos domingos de manhã.
O tempo passou. O filho aprendeu com o pai.
E o pai iniciou a rezar, pedindo a Deus que o filho não levasse o mesmo tempo que ele precisou para aprender que não existe momento certo para o amor. Não temos que esperar.
Pode não haver o amanhã.
2013, Abril, 18