segunda-feira, 11 de março de 2013

Conto 02


"Lutas acontecem desde os anticorpos contra bactérias até desejos contra vontades superiores.
Onde anda o seu livre-arbítrio? Ele anda preso e pesado em você ou solto e leve em sua consciência?"
P. Theos

A percepção depende do ponto de vista de cada um.
Perceber sob diversas óticas é o grande crescimento da alma.

"O Guerreiro em sua incessante sede de vencer afiava a sua espada em uma pedra na montanha.
Afiava e conferia, com as pontas dos dedos se o corte estava exatamente como deveria estar.
Ensaiou alguns golpes, no pescoço do inimigo, em seu estômago, arrancando sua mão.

Sentiu o peso da espada, colocou-a em sua bainha.

Respirou fundo e sentiu como se tivesse cumprido o seu dever naquele dia. Estava protegido.

Caminhou até a sua rede, que estava estendida entre duas árvores. Conferiu a pequena fogueira, acenou aos demais companheiros e pôs-se a deitar em sua rede de retalhos.

Ele se entregava aos seus retalhos de vida, naquele momento, na lembrança sombria da dimesão mórbida que acessava em seus sonhos.

Fechou os olhos e lembrou-se que na noite anterior sonhara com sua família, deixada na vila agrária, protegida daquele sangue que esguichava de cada veia que cortava pelo propósito que acreditava.

Segurou sua espada e entregou-se à sua rede de retalhos.

Noutra dimensão consciente, sonhou. 

Primeiro encontrou-se com seus irmãos de batalha, reviu seus planos de ataque, conferiu o corte de sua espada e foi fazer suas refeições.

Depois, encontrou-se com sua mãe morta, em meio a outras pessoas desconhecidas, e a abraçou como se recordasse de sua infância miserável, e a pediu perdão por ter se tornado um homem frio e sem medo de tirar a vida do outro.

Então, num terceiro sonho, viu o inimigo o empurrando precipício abaixo.

Foi quando acordou gelado, saltando de sua rede de retalhos, com sua espada empunhada.

Percebendo que seus desejos e seus medos eram capazes de alterá-lo, mesmo que estivesse dormindo.

Na manhã seguinte, foi em busca de seu capitão para contar-lhe seus sonhos, como se sentisse um presságio...

O capitão o ignorou, porque guerreiros não podem sentir medo.

O guerreiro preocupado com a sua queda, questionou-se se o seu propósito de estar ali era por algo superior ou por algo inferior. 

Se o propósito era pela coletividade ou por si. 

Se estava sendo apenas mais um na massa de manobra dos grandes reis ou se estava ali por amor ao reino.

A dúvida o tomou por inteiro.

Lembrou-se que a sua família era o que lhe restava.


Entendeu que o capitão o interpretara apenas como mais um braço que levantava a espada.

Desacreditou em seu propósito.

Desertou e voltou para a sua vila."



2013, Março, 11

domingo, 10 de março de 2013

Conto 01

"Muitos assuntos estão velados sob nosso nariz.
Não enxergamos a poeira da ignorância que afeta tanto os alérgicos da vida.
Vivemos com doenças toscas, que deveriam ser erradicadas com vacinas de boa moral e sabedoria."
P.Theos

O primeiro dia sempre é o dia mais difícil. Rodeado de incertezas, de expectativas, sempre estamos prontos para julgar que se aproxima e como lidamos com as coisas.
Primeiras impressões, o que passamos, o que vivemos, o que vemos, o que sentimos. 
Mal sabem aqueles que desprovidos da consciência clara, que o primeiro é o menos importante, pois o que importa é a continuidade, o sempre.
Estamos contidos numa dimensão, com noção de passado-presente-futuro, instituído pelo Alento no intuito de criarmos parâmetros de evolução dentro dessa casca finita que chamamos de corpo.
Esquecemo-nos que a única coisa que existe é o sempre.

"O sol estava se pondo, no horizonte, a luz coral do por-do-sol denunciava o entardecer acabando, dando lugar a uma noite de lua crescente, clara e brilhante. Era possível ouvir os pássaros se ajeitando sob os galhos das árvores para mais um adormecer.

Toc-toc-toc, alguém batia na porta. Uma porta de madeira maciça. que trancava um casebre de tijolos velhos, na subida do morro do monastério. Quem haveria de ser, aquela hora na segunda-feira a noite? 

O monge se preparava para dormir, junto com os pássaros, e num primeiro instante resolveu ignorar o som seco que vinha das batidas na porta. Toc-toc-toc.

Era alguém que não conhecia os protocolos daquele lugar, ou algum rebelde que estava a perturbá-lo, já que os tempos mudaram e com acessos liberados, qualquer um poderia entrar naquelas terras.

O monge dormiu escutando as batidas na porta, uma a cada 2 minutos, 5 minutos, 10 minutos, 30 minutos, 1 hora, 2 horas, 3 horas, até acordar com a última batida, ensurdecedora, muito abafada. Boom!

O monge acordou, assustado, foi até a porta e encontrou uma pedra embrulhada com um bilhete de seu Lama, que dizia:

"Precioso aprendiz,

vejo que de nada servem os ensinamentos que vens aprendendo 
nesse monastério suspenso nas nuvens, uma vez que o seu ego 
só sabe seguir regras desse mundo de ilusões em que vivemos.

Ao bater na porta, queria convidar-lhe a participar do ritual 
sagrado, mas as convenções que te prendem aos hábitos regrados 
o impediu de atender-me e desfrutar dessa maravilhosa dádiva.

Aconselho que se abra ao teu interior, e se feche ao exterior, e 
abandone o seu ego ao se levantar da sua cama.

Pois não será o seguir das regras que o levantará, mas as medidas
 que o seu coração gera para apaziguar o seu destino nessa vida 
de evolução.

Venha a minha porta, no mesmo horário em que bati na sua porta, 
para teres comigo a sua chance."

O jovem monge sentou-se gelado e suando frio em sua porta, e percebeu que os velhos hábitos dogmáticos estavam a sua espreita. Se viu como um velho rabugento preso às convenções sociais daquele sistema e pôde perceber que a essência fundamental está acima de qualquer paradigma, e que a sabedoria dessa história seria se refazer e estar aberto a ponderar os acontecimentos, corrigir as rotas estranhas e seguir no caminho da presteza e da humildade.

Nessa manhã, o monge jejuou de seu orgulho por estar lá entre os iluminados e bebeu da chance de ser um dos acolhidos pela sabedoria, e assim resolveu não se amargurar e nem se punir, mas se levantar e compartilhar com seu mestre o seu reconhecimento humilde do erro por tê-lo ignorado.

O Mestre só aparece quando estamos preparados para Ele. Mas se ainda nos determos em não enxergá-lo, com a sabedoria, teremos uma nova chance de reconhecê-Lo."

2013, Março, 10.
Re-publicando em 2018